Imaginar

Perguntou por que ele lia e escrevia ao invés de ir atrás de trabalho. "Estou trabalhando, mana", disse tio Ran. "Trabalho com a imaginação dos outros e com a minha." Ela estranhou a frase, que algum tempo depois eu entenderia como uma das definições de literatura.

Milton Hatoum
Cinzas do Norte

Desaparecimento impossível


Continuo brincando de não ser cego, continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Um dia desses me ofereceram uma edição da Enciclopedia Brockhaus de 1966. Senti a presença daquela obra na minha casa, senti essa presença como um espécie de felicidade. Lá estavam os vinte e tantos volumes impressos uma letra gótica que não tenho condições de ler, com os mapas e gravuras que não tenho condições de ver; e o fato é que os livros estavam lá. Eu sentia uma espécie de gravitação amistosa que vinha deles. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, homens, temos.
    Fala-se no desaparecimento do livro; eu acho que é impossível.

Jorge Luis Borges
O livro, em Borges oral e sete noites

Missões da literatura

Quem tinha razão era o irritado educador ou vice-diretor, dr. Pessach Ikhat, que se levantou ao final do evento e alegou raivosamente que uma das missões da literatura era às vezes destilar da miséria e do sofrimento ao menos uma pitada de consolo ou um pequeno lampejo de benevolência. Como dizê-lo? Ao menos lamber nossas feridas, já que não lhes põe nenhum curativo. E a literatura deve, no mínimo, dignar-se de não coquetear e de não se comprazer em ridicularizar e cavucar as feridas, como fazem atualmente ad nauseam os novos escritores, tudo para eles é sátira, tudo é zombaria e paródia, paródia deles mesmos, tudo é perversa mordacidade, e tudo está cheio de maldade.

Amos Oz
Rimas da Vida e da Morte

Bagagem

Se lemos um livro antigo é como se lêssemos todo o tempo transcorrido entre o dia em que ele foi escrito e nós. O livro pode estar cheio de erratas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas ele ainda conserva alguma coisa sagrada, alguma coisa divina, não com respeito supersticioso, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

Jorge Luis Borges
O livro, em Borges Oral e Sete Noites

Por que escrever?

Como sabem, a pergunta que mais fazem a nós, a pergunta predileta, é: por que você escreve? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrevo. Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia sentado à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico. Escrevo porque quero que os outros, todos nós, o mundo inteiro, saibam que tipo de vida nós vivemos, e continuamos a viver. Escrevo porque adoro o cheiro do papel, da caneta e da tinta. Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão. Escrevo porque tenho medo de ser esquecido. Escrevo para ficar só. Talvez escreva porque tenho a esperança de entender porque eu sinto tanta, tanta raiva de todos vocês, tanta, tanta raiva de todo mundo. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque quando começo um romance, um ensaio, uma página, sempre quero chegar ao fim. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença infantil na imortalidade das bibliotecas. Escrevo porque é animador transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo porque desejo escapar do presságio de onde existe um lugar para o qual preciso ir, mas ao qual -como num sonho- nunca chego. Escrevo porque jamais consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz.

Orham Pamuk
A maleta de meu pai

Escrita e complexidade

Tentei, não sei se com felicidade, a redação de contos diretos. Não me atrevo a afirmar que são simples; não existe na Terra uma única página, uma única palavra que o seja, já que todas postulam o universo, cujo atributo mais notório é a complexidade.

Jorge Luis Borges
O informe de Brodie, prefácio

Descobridores

Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor. Ele começa descobrindo o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tantas letras do alfabeto; passa pelos rostos, mapas, animais e astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da própria ignorância.

Jorge Luis Borges
Atlas, prefácio

Riscos

E chegou o dia
em que o risco
de permanecer apertada
no botão
era mais doloroso
que o risco
necessário
para florir.

Anaïs Nin

Tempos

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário.

Charles Dickens
Um conto de duas cidades, parágrafo de abertura

Deserto

— Senhor, disse ele, sou o seu servo e aguardo suas ordens!
     — Gostaria de sair deste deserto, explicou Bastian. Você pode me levar para fora daqui?
     Graograman abanou a juba.
     — Isso é impossível, senhor.
     — Por quê?
     — Porque eu trago o deserto comigo.

Michael Ende
A história sem fim

Viagens e felicidade

Viajar é o paraíso dos tolos. Devemos às nossas primeiras jornadas a descoberta de que o lugar não significa nada. Em casa, imagino sonhadoramente que em Nápoles ou em Roma poderei intoxicar-me de beleza e livrar-me da tristeza. Faço as malas, abraço os amigos, tomo um vapor e, finalmente, acordo em Nápoles e lá, diante de mim, está o fato insubornável, o triste eu, implacável, idêntico, de que fugi. Visito o Vaticano e os palácios. Finjo estar intoxicado com as visitas e as sugestões, mas não é verdade. O meu gigante acompanha-me por onde vou.

Ralph Waldo Emerson
Ensaios

Quero só ver

mau pai foi
ao Rio tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem
quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro.

Ferreira Gullar
Muitas vozes, Meu pai

Sobre quem repassa e-mails com nome de Clarice

Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinado embaixo meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo.

Clarice Lispector
Correspondências (Teresa Monteiro, org.)

Sobreviver

Mas sobreviver não é bom. Creia-me. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra, estiola-se num não saber que fazer do tempo, que não flui, e da aridez da existência, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo.

Elisa Lispector
Corpo a corpo

Arrependimento

— Observo o arrependimento periódico como uma grande hipocrisia –disse solenemente d'Arthez.– [...] O arrependimento é uma virgindade que nossa alma deve a Deus: um homem que se arrepende duas vezes é pois um terrível sicofanta.

Honoré de Balzac
Ilusões perdidas, parte ii

Livros e dinheiro

Todas essas incursões pelos campos do pensamento, nosso monumento construído com nosso sangue torna-se para os editores um mau ou um bom negócio. Os livreiros venderão ou não seu manuscrito. Para eles, eis todo o problema. Um livro, para eles, representa um capital a arriscar. Mais o livro é belo, menos tem chances de ser vendido. Todo homem superior eleva-se acima das massas, seu sucesso está, pois, em proporção direta com o tempo necessário para apreciar a obra. Nenhum livreiro deseja esperar. O livro de hoje deve ser vendido amanhã. Neste sistema, os livreiros recusam os livros substanciais para os quais é preciso elevadas e lentas aprovações.

Honoré de Balzac
Ilusões perdidas, parte ii

Jornalismo

Vejo os jornalistas nos saguões dos teatros, e eles me causam horror. O jornalismo é um inferno, um abismo de iniquidades, de mentiras, de traições; não se pode atravessá-lo de dele sair puro, a menos que protegido, como Dante, pelos divinos louros de Virgílio.

Honoré de Balzac
Ilusões perdidas, parte ii

Verdadeiro leitor

Se este livro vier jamais a sair, que se afastem dele os profanos. Pois escrever é coisa sagrada, onde os infiéis não têm entrada. Estar fazendo de propósito um livro bem ruim para afastar os profanos que querem "gostar". Mas um pequeno grupo verá que esse "gostar" é superficial e entrarão adentro do que verdadeiramente escrevo, e que não é "ruim" nem é "bom".

Clarice Lispector

Pôr-do-sol

O pôr-do-sol de Santa Fé também o deixava exaltado. Em certos dias de outono, subia à coxilha do cemitério para ver os crepúsculos vespertinos, que eram longos e fantasticamente coloridos. Em certas horas o céu do poente tomava uma tonalidade esverdeada e transparente: era como se a cor dos campos se refletisse no vidro do horizonte. E sobre toda a paisagem em torno pairava uma vaga neblina violeta que acentuava as sombras, tingia as pessoas, os animais e as coisas, parecendo aumentar a quietude do ar e da hora.

Erico Verissimo
O continente, vol. ii, A teiniaguá, cap. v

Cartas, beijos e areia

Sim, querida Lotte, deixe tudo por minha conta: faça-me mais pedidos; dê-me esses encargos com mais frequência. Só lhe pediria uma coisa: nunca mais seque a tinta de seus bilhetes cobrindo-os com areia! O de hoje, levei-o vivamente aos lábios, e ainda agora a areia me range entre os dentes.

Goethe
Os sofrimentos do jovem Werther, 25 de julho