Sentira que estava entrando mais numa sensibilidade do que numa casa. O piso era escuro, quase negro, de tábuas largas; o teto parecia a caixa torácica de uma baleia, marcas de machado ainda na madeira. A lareira feita de seixos de rio prateados cintilava como areia. Luxuriantes samambaias brotavam das janelas, rígidos debruns de folhagens lanudos de esporos, curvos nódulos felpudos cor de bronze. Ele entendeu que ali tomaria consciência de profundidade, largura, altura e de uma dimensão mais fugidia. Lá fora, pássaros de colorido apaixonado voejavam e trinavam, e o Himalaia subia, camada sobre camada, até aqueles picos fulgurantes que provavam que o homem era tão pequeno que fazia sentido desistir de tudo, tudo esvaziar.
Kiran Desai
O legado da perda, cap. vi