Monção

Telefones emitiam um metralahar mortal, televisões se tornavam uma imagem da chuva. E nessa estação molhada, diareeica, flutuava o sentimento, solto e leve, da vida como uma coisa comovente, dissipada, fria e solitária, não alguma coisa que se pudesse captar.

Kiran Desai
O legado da perda, cap. xvii

Ao menos

Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira

Amor silencioso

[...], porque existem muitas maneiras de amar, não só o jeito que se vê no cinema, que é o único que você conhece. Você é uma menina muito boba. O maior amor é o amor que nunca se mostra.

Kiran Desai
O legado da perda, cap. xvi

A casa nas montanhas

Sentira que estava entrando mais numa sensibilidade do que numa casa. O piso era escuro, quase negro, de tábuas largas; o teto parecia a caixa torácica de uma baleia, marcas de machado ainda na madeira. A lareira feita de seixos de rio prateados cintilava como areia. Luxuriantes samambaias brotavam das janelas, rígidos debruns de folhagens lanudos de esporos, curvos nódulos felpudos cor de bronze. Ele entendeu que ali tomaria consciência de profundidade, largura, altura e de uma dimensão mais fugidia. Lá fora, pássaros de colorido apaixonado voejavam e trinavam, e o Himalaia subia, camada sobre camada, até aqueles picos fulgurantes que provavam que o homem era tão pequeno que fazia sentido desistir de tudo, tudo esvaziar.

Kiran Desai
O legado da perda, cap. vi

Conclusões

Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, me parecem totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado.

Jorge Luis Borges
Ensaio autobiográfico, parágrafo final

Pluma de neve

Durante todo o dia as cores tinham sido como a do anoitecer, neblina deslizando como uma criatura de água pelos grandes flancos de montanhas tomadas por sombras e profundidades oceânicas. Brevemente visível acima do vapor, o Kanchenjunga era um pico distante talhado em gelo, absorvendo o resto da luz, no topo uma pluma de neve soprada alto pelas tormentas.

Kiran Desai
O legado da perda, parágrafo de abertura

Passado e futuro

[...] Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
     — Você viaja para reviver o seu passado? –era, a esta altura a pergunta do Khan, que podia ser formulada da seguinte maneira:– Você viaja para reencontrar o seu futuro?
     E a resposta de Marco:
     — Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

Italo Calvino
As cidades invisíveis

Sinfonia

[...] a vida é uma orquestra que sempre está tocando, afinada,, desafinada, um paquete Titanic que sempre se afunda e sempre volta à superfície [...]

José Saramago
As intermitências da morte, cap. xiii

Soberana morte

[...] a morte que se está levantando agora é uma imperatriz. Não deveria estar nessa gelada sala subterrânea, como se fosse uma enterrada viva, mas sim no cima da mais alta montanha presidindo aos destinos do mundo, olhando com benevolência o rebanho humano, vendo como ele se move e agita em todas as direções sem perceber que todas elas vão dar ao mesmo destino, que um passo atrás os aproximará tanto da morte como um passo em frente, que tudo é igual a tudo porque tudo terá esse único fim, esse em que uma parte de ti sempre terá de pensar e que é a marca escura da tua irremediável humanidade.

José Saramago
As intermitências da morte, cap. xii

Fotografia

Havia duas fotografias na parede: uma dele mesmo com a mulher no dia do casamento, uma de [seu filho] Biju vestido para ir embora de casa. Eram fotografias de gente pobre, dos que não podem desperdiçar uma foto, pois enquanto no mundo inteiro as pessoas posavam com um abandono nunca antes experimentado pela espécie humana, aqui eles ainda ficavam duros como se fosse para um raio X.

Kiran Desai
O legado da perda, cap. ii